O DeepStack é uma tecnologia de Inteligência Artificial (IA) que funciona como um bot de poker e que foi desenvolvida por uma equipa de investigadores canadianos liderada pelo professor Michael Bowling. Michael Bowling ensina na Universidade de Alberta e recebeu um Ph.D em Sistemas Multi-agentes sob a direcção da cientista portuguesa Manuela Veloso da Universidade de Carnegie Mellon. Enquanto líder do Computer Poker Research Group, Bowling dedicou-se a desenvolver aquele que é o mais avançado sistema de IA de poker desenvolvido até ao momento. Aquilo que o torna tão especial? Jogar exactamente como um ser humano faria, mas fazê-lo com estrondoso sucesso.

O melhor bot de poker do mundo

O DeepStack foi posto à prova num total de 44,000 mãos de poker online e venceu 49 em cada 100 Big Blinds disputadas. Pelo caminho, cruzou-se com vários jogadores profissionais e levou sempre a melhor. Nem mesmo Phil Laak, que é um dos maiores especialistas mundiais da modalidade e detentor de uma Bracelete da World Series of Poker (WSOP) conseguiu derrotar o DeepStack. De todos os bots de poker desenvolvidos até ao momento, este foi aquele que obteve maior sucesso, tendo sido também o primeiro a vencer jogadores profissionais em disputas em tempo real envolvendo mais do que 2 jogadores.

Anteriormente, um sistema de IA chamado Pluribus - também desenvolvido em específico para ganhar no poker - já tinha conseguido derrotar jogadores profissionais nas mesas de jogo virtuais, mas tal tinha acontecido sempre num cenário de confronto directo. O Pluribus foi um sucesso, mas a sua tecnologia é muito diferente daquele que Michael Bowling e a sua equipa desenvolveram, e isto pode ajudar a explicar por que fica aquém da do DeepStack. Mas afinal, como funciona o DeepStack e o que é que o torna tão especial?

Prever o imprevisível

Os primeiros bots de IA designados para jogos eram normalmente aplicados a sistemas fechados como o xadrez. Neste contexto, eles funcionavam de acordo com situações perfeitas, em que conseguiam prever com segurança todas as possíveis alternativas a todo o instante. No xadrez isto é possível porque o xadrez é um jogo resignado às suas próprias regras, altamente baseado na capacidade de análise, e pouco dado à imaginação. No poker isto não acontece, pelo que os bots de IA de poker têm que ser capazes de lidar com situações imperfeitas. De modo a conseguirem fazê-lo com eficácia, eles têm que aprender. A tecnologia do DeepStack está por isso fundamentada num sistema de deep learning que funciona através de redes neuronais complexas que permitem que a IA aprenda e se desenvolva por si própria, tal como um animal ou ser humano faria.

Qualquer pessoa que já tenha jogado poker online Portugal está consciente de que ganhar não é tão fácil e simples como parece. O jogo depende muito mais da habilidade do jogador do que da sorte, e embora componentes previsíveis (como probabilidades) sejam importantes para o sucesso na mesa de poker, os vencedores destacam-se essencialmente pela sua capacidade em ler os outros jogadores e pela sua facilidade em esconder as próprias cartas. Pelo que, de modo a fazer do DeepStack um sucesso, Michael Bowling teve que dar à sua tecnologia um atributo ainda mais humano do que a capacidade de aprendizagem...

Uma máquina com instinto

Compreendendo que os melhores jogadores de poker operam muitas vezes com base no próprio instinto, ignorando princípios lógicos em função de situações específicas (e com isso obtendo sucesso), Michael Bowling e a sua equipa tornaram o DeepStack numa máquina com um atributo muito especial: a capacidade de intuir. A intuição é uma habilidade bem humana que consiste em assumir dois ou mais dados não-relacionados como verdadeiros e a partir deles extrair um terceiro dado (ou conclusão) não necessária. Mas como é que o DeepStack faz isto?

Em primeiro lugar, é importante mencionar que o DeepStack não intui como um humano, porque um humano não passa toda a sua vida apenas a jogar poker... No entanto, no contexto de uma mesa de poker online, o DeepStack está preparado para agir exactamente da mesma maneira que um ser humano faria. Tal é possível devido a um mecanismo que força o DeepStack a agir em tempo real e sempre no contexto isolado de uma mão de poker. Assim, este bot de IA não deriva as suas lições a partir de jogos completos, mas sim de situações isoladas muito particulares.

Desta maneira, torna-se possível prever o que o DeepStack fará a seguir. Nem mesmo os seus programadores poderão assumir ao certo saber qual será a sua próxima jogada, porque o DeepStack "vive" no momento. A IA do DeepStack chega mesmo ao ponto de se auto-estupidificar, significando isto que reduz o número de dados a que pode ter acesso no momento de tomar uma decisão em tempo real. Ao trabalhar apenas com um número parcial de informação processada em tempo real, o DeepStack passa subitamente a ser dono e senhor do seu próprio instinto de poker, aquilo a que os norte-americanos chamam de "gut". E a julgar pelos resultados, este é um gut que tem tudo para superar o dos verdadeiros seres humanos.

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Ler 3845 vezes Modificado em Jan. 06, 2020
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