“Sem dúvida que as redes sociais se tornaram num espaço que fomenta a autoexpressão e a criatividade dos jovens, mas aquilo que temos visto é que quando os filtros são mais utilizados para criar padrões de beleza irreais do que como forma de entretenimento, então estamos a falar de consequências negativas para a autoestima dos jovens, que se sentem pressionados em manipular a sua imagem até atingir uma perfeição, que nem sequer existe na vida real”, alerta Firdaous El Honsali, Diretora Global de Comunicação e Sustentabilidade de Dove.
A nova campanha Reverse Selfie (em português, Selfie Invertida), vem chamar atenção para a forma como a distorção digital está a fragilizar a autoestima dos jovens e revela dados alarmantes que comprovam a gravidade do problema à escala global. O estudo Detoxify Beauty, (estudo foi conduzido pela agência de estudos de mercado Edelman Data & Intelligence, através de um inquérito online realizado em março de 2021 a uma amostra de 510 raparigas, entre os 10 e os 17 anos) realizado no âmbito da campanha, foi conduzido em 10 países, incluindo em Portugal, com o objetivo de avaliar como as redes sociais e a manipulação digital estão a impactar os comportamentos e o quotidiano das gerações mais jovens.
OS PRINCIPAIS RESULTADOS EM PORTUGAL
A manipulação digital como meio para atingir a beleza ideal nas redes sociais
- 76% das raparigas com 13 anos usam filtros ou recorrem a aplicações para mudar a sua aparência nas fotografias. Em média, têm 12 anos quando utilizam pela primeira vez este tipo de funcionalidades.
- 64% das raparigas tentam editar ou esconder pelo menos uma característica do seu corpo antes de publicarem uma fotografia de si mesmas.
- 41% das jovens com baixa autoestima preferem ver-se em fotos editadas e 25% lamentam que na vida real não possam assemelhar-se à pessoa que mostram online.
- São precisas, em média, 9 selfies de “tentativa” até que as jovens consigam uma fotografia que gostem para publicar nas suas redes sociais.
- 45% das raparigas gastam mais de 10 minutos a preparar-se para uma selfie.
- As jovens com baixa autoestima são mais vulneráveis à manipulação digital: afirmam que embora o processo de edição seja divertido (69%) e criativo (59%), também o fazem porque se preocupam com os comentários negativos que poderiam receber caso não manipulem a sua imagem (37%) e porque querem sentir-se mais confiantes com elas mesmas (45%).
As jovens gostavam que as redes sociais fossem mais representativas da beleza feminina
- 63% das inquiridas afirmam que se as fotografias publicadas nas redes sociais fossem mais representativas da beleza feminina, isso contribuiria para que fossem raparigas mais confiantes.
- 59% gostavam que as influenciadoras digitais representassem verdadeiramente diferentes tipos de beleza nas redes sociais.
- 30% das jovens com baixa autoestima sentem-se menos bonitas quando veem fotos de celebridades/influenciadoras nas redes sociais.
- Apenas metade das jovens consideram que as redes sociais são um fator positivo nas suas vidas e pouco mais de metade (59%) que podem ser elas mesmas nas redes sociais.
- 62% desejavam que as redes sociais correspondessem mais à vida real.
O papel da escola na construção da autoestima
- 78% das raparigas gostavam que a escola tivesse um papel mais ativo na construção da autoestima, ensinando-lhes a sentirem-se bem nos seus próprios corpos.
- 76% também referem que desejavam que a escola lhes ensinasses como valorizar as diferenças dos outros.
Na perspetiva da psicóloga Filipa Jardim da Silva, os números são preocupantes e não deixam mentir: “estamos perante uma geração que procura nas redes sociais a validação dos outros por via dos likes ou dos comentários, quando seria muito mais benéfico que as redes sociais fossem verdadeiramente um espaço onde os jovens se pudessem autoexpressar livre e criativamente, sem receio da opinião dos outros”.
Filipa Jardim da Silva alerta ainda para as consequências a longo prazo que a manipulação digital poderá ter na personalidade e autoestima dos jovens. “A partir do momento em que uma adolescente manipula continuamente a sua imagem nas redes sociais, na tentativa de alcançar padrões de beleza que não correspondem à vida real, está a alimentar uma falsa autoestima, o que reduz a sua qualidade de vida. A insegurança e a autocrítica permanentes minam a forma como o jovem se vê, como se relaciona com os outros e como toma decisões. Assim, há um risco aumentado de estados de ansiedade e depressão, as relações sociais e amorosas são prejudicadas, há um impacto negativo no desempenho académico e verifica-se uma vulnerabilidade acrescida para o desenvolvimento de distúrbios de comportamento alimentar, bem como do consumo de substâncias”, explica.
A psicóloga realça também que os pais e os professores são peças-chave na construção da autoestima dos jovens: “A família e a escola têm um papel fundamental na construção da autoestima dos jovens. É importante que os adultos de referência valorizem cada jovem, ajudando-os a descobrirem as suas forças e talentos e respeitando a sua individualidade, mais do que fomentar comparações injustas. Separar os comportamentos da identidade pessoal e valorizar mais o processo de aprendizagem do que o resultado concreto são dois princípios essenciais na construção de uma boa autoestima”.