Ontem no meu regresso a casa, olho pela janela do autocarro e desperto a atenção para a grande quantidade de pessoas que utilizam o telemóvel naquele momento. Vejo alguns rostos felizes, outros indiferentes e mais alguns com expressões de preocupação ou nervosismo.

Mergulho nos pensamentos e pergunto-me se o acesso "fácil" à tecnologia fez com que mudássemos, ao longo dos anos, de forma abrupta a forma como vivemos e nos relacionamos?

 

Atualmente apoiamo-nos muito nos computadores para produzir, sujeitamo-nos aos telemóveis para organizar o nosso trabalho, valorizamos a facilidade com que acedemos ao nosso dinheiro numa qualquer caixa multibanco, gostamos de passar na Via Verde sem parar para pagar a portagem, descansamos ao beneficiar da comodidade de comprar pela internet, etc. Todas estas possibilidades se instalaram na sociedade há poucas décadas e ganharam um realce e presença tão fortes que parece que sempre existiram e fizeram parte das nossas rotinas.

Estes meios mudaram a forma como vivemos e nos relacionamos uns com os outros. As grandes transformações na sociedade sempre se associaram a saltos tecnológicos (ex: revolução industrial) não sendo algo vivido apenas do nosso tempo. Em cada fase histórica, representaram benefícios para as pessoas, permitindo evoluir na eficácia dos processos e colocando ao nosso alcance condições que antes seriam impossíveis, por exemplo, ao nível da comunicação à distância e mesmo no acesso a tratamentos de saúde.

Cada vez que se dá um avanço tecnológico, solucionam-se diversos problemas.

Contudo, também este avanço nos confronta com novas dificuldades que até ao momento não eram consideradas. Podemos falar de postos de trabalho que deixam de existir ou nos quais a pessoa é substituída pela máquina, robot ou programa de computador, perdendo-se um emprego. Surge a questão da iliteracia tecnológica que acompanha as gerações dos nossos pais ou avós e os impede, por vezes, de acederem e compreenderem determinados serviços. Acabamos muitas vezes por nos isolar ou afastar fisicamente de outras pessoas e preferimos um contacto mais impessoal e virtual, quer no domínio profissional quer na vida pessoal. Tendemos a aceder à tecnologia, de forma leviana e sem nos lembrarmos das consequências nefastas que a sua produção em massa tem para os seres humanos e também para o ambiente, aumentando a poluição e danificando de forma permanente alguns ecossistemas.

Não sou contra os avanços tecnológicos, pelo contrário. Sinto que podem ser muito úteis à sociedade e ajudar-nos a viver melhor. Parece-me até, que vão ser determinantes nas soluções que hão-de vir para resolver alguns dos danos que estamos agora a causar. Ainda assim, sinto que ainda não apostamos numa tecnologia que tenha como objetivo último e genuíno servir as pessoas e o seu bem-estar, tal como nos exemplos que apresentei acima.

Quando penso em empreendedorismo, associo de imediato este conceito a palavras como evolução, criação, novos caminhos e possibilidades. Penso na necessidade atual de apostarmos em empreendedores que aliam a capacidade criativa a uma evolução mais centrada nas pessoas, no seu bem-estar e felicidade, sem prejuízo do ambiente que nos rodeia.

Por vezes, a velocidade com que empreendemos novas soluções tecnológicas, impede-nos de ver as consequências dramáticas que a criação de novos produtos e serviços nos podem trazer. A poluição que a industria tecnológica origina e a utilização desmesurada que faz dos recursos finitos do planeta é um problema para todos nós e no qual devemos pensar seriamente, procurando soluções.

Sou a favor dos avanços na tecnologia e do empreendedorismo tecnológico, contudo sinto que é urgente que sejam considerados novos meios para evoluir e agir.

Entendo que os empreendedores do século XXI devam ser pessoas atentas às necessidades de todos os seres humanos e do seu ambiente. É importante considerar e ponderar os efeitos nefastos de uma evolução tecnológica feita a uma velocidade estonteante e perceber em que medida estamos a ser servidos por esta evolução, vendo as nossas condições de vida melhoradas. Ou estamos, afinal, a prejudicar-nos e sacrificar-nos em nome de um mundo altamente avançado tecnologicamente mas que já deixou de se preocupar com os valores mais profundos da Humanidade, com o seu bem-estar, a qualidade das relações interpessoais e a conexão com a natureza e o ambiente.

 

Autora : Daniela Toscano (Formadora e Consultora RH; Coach & Trainer em PNL Programação Neurolinguística e Executive Master em Psicologia Positiva Aplicada)

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