Os portugueses têm vindo a fechar a carteira à compra de ingressos nas salas de cinema – no ano passado, as operadoras de cinema faturaram apenas 62,7 milhões de euros, fruto de 12 milhões de espetadores. De acordo com o Instituto do Cinema e Audiovisual, trata-se da maior quebra desde 2004, ano em que as receitas foram de 71 milhões. Num país em que a média de espetadores numa sala é de 20 pessoas, a receita das exibições de cinema está ameaçada. Enquanto isso, os serviços de vídeo por streaming estão a modificar grande parte dos hábitos de ver filmes – oferecendo os títulos de forma mais cómoda, rápida e gratuita.
O caso do Wareztuga é porventura o mais conhecido, envolto em polémica e problemas legais. O serviço foi fundado em 2011, advogando ser a “primeira grande videoteca nacional de acesso gratuito", e acabou por encerrar este ano, “por vontade própria”, segundo fez saber a administração em comunicado. Este site foi várias vezes “atacado” por entidades que representam os autores e os produtores de vídeo em Portugal, e foi apenas um entre muitos outros serviços de streaming que permitem ver séries e filmes internacionais sem pagar. O caso levantou óbvias questões legais e debates junto da Justiça, mas nem por isso esmoreceu a expansão destas plataformas de entretenimento à distância de um clique.
Os sites tuga.io e o cinego.me são alguns dos mais recentes exemplos nacionais a acenar na Internet – tal como noticiou a Wintech –, permitindo a qualquer pessoa o visionamento dos filmes e séries mais badalados, sem qualquer custo. Perante uma oferta tão vasta e aparentemente homogénea, quem não tem orçamento que permita pagar 6.50€ no cinema, dispensa mesmo essa experiência ou evita sair de casa, opta pela utilização destes sites. Quem perde? Os operadores de cinema, as distribuidoras dos filmes em DVD e, em primeira linha, os criadores das obras.

Os (novos) hábitos e soluções de acesso ao entretenimento audiovisual gratuito passam pela adesão aos serviços de streaming. O estudo Techonomic Index 2015, da responsabilidade da Samsung, coloca os portugueses acima da média europeia quanto à utilização desses serviços, seja para ver televisão, séries, filmes ou ouvir música online. E quanto mais pessoas veem filmes no computador ou tablet, menos compram DVDs – no primeiro semestre deste ano venderam-se 714 157 unidades (dados da GFK), provocando quebras de mais de um milhão de euros nesse mercado. A gama de filmes Blue-Ray, curiosamente, subiu para receitas de 900 mil euros.
A retração do consumo das famílias e a necessidade de poupança para comprar artigos de maior necessidade ditaram um emagrecimento do mercado de bens culturais acessórios, leia-se os CDs, DVDs e livros. À velocidade a que Internet foi galopando (com o aumento do tráfego de dados), os sites de streaming cresceram e os clubes de vídeo de bairro e até mesmo as grandes cadeias (como era o caso da Blockbuster, com 17 lojas em Portugal) foram conhecendo a falência. Em 2010 existiam 300 videoclubes em Portugal; em 2013 apenas 100. Hoje, muito menos. Os culpados? A “pirataria” – apontaram então muitos dos empresários lesados – e a oferta das operadoras de televisão.
Mesmo assim, corria o ano de 2011 quando a antiga ZON (atual NOS) comunicou um aumento de 100% nas receitas obtidas com o serviço de video-on-demand, lucrando 1,5 milhões de euros. Já em maio de 2013, lia-se numa notícia do jornal Público que a mesma ZON havia entretanto registado um “declínio de receitas das vendas de conteúdo de vídeo doméstico”, e que em relação à MEO metade dos clientes usava o serviço pelo menos uma vez por ano.
youtube.com/watch?v=fnmZFHzUfaM
A expansão dos sites de streaming e torrents de filmes e séries – cada vez mais amigos do utilizador curioso, esporádico e inexperiente – é um sintoma inegável de que a indústria do cinema está a perder o controlo sobre a distribuição das obras. Daí resultam incalculáveis prejuízos para os direitos de autor e distribuidor, e um ganho (poupança) deveras simpático para o consumidor final. A razão desta mudança de hábitos, além de económica, poderá ser também geracional. Os jovens dominam estes serviços com maior conhecimento e facilidade que os pais, e têm acesso à cultura cinematográfica sem qualquer custo, gerindo melhor o dinheiro de que dispõem. Por outro lado, uma parte deste problema reside na própria natureza dos conteúdos. Valerá a pena gastar quase sete euros no visionamento de uma comédia de baixo orçamento, com um argumento e elenco de “cortar os pulsos”? Perante o conforto, rapidez e gratuitidade do streaming, o consumidor não deverá pensar muitas vezes…
Longe das idas ao clube de vídeo e das filas para comprar o DVD mais recente de uma saga de ação, os portugueses têm vindo a deixar-se seduzir pela vasta oferta de plataformas onde ver séries e filmes com qualidade é algo possível e, acima de tudo, grátis. Uma coisa é certa: apesar de os serviços de streaming e download parecerem a última maravilha, tropeçam em graves questões legais, capazes de causar comichão ao mais honesto e cumpridor cidadão. Em todo o caso, a aplicação das consequências legais e de medidas efetivas que proíbam o acesso e o visionamento destes conteúdos aparenta ser uma realidade distante, por isso, provavelmente só há uma coisa a fazer – recostar-se no sofá, carregar no Play… ou ler um livro.
O mercado do entretenimento audiovisual está em constante mudança, tendo vindo a ultrapassar momentos decisivos, especialmente na última década. A evolução tecnológica dos suportes de vídeo, a expansão da oferta de conteúdos e a mutação, muitas vezes irreversível, dos comportamentos de consumo do público são as três linhas de força de um mercado capaz de ganhar e perder muitos milhões.